
Anoiteceu... faz frio...
Merde!!!
Aprendi com Xenofonte que palavrão em boca de mulher é como lesma em corola de rosas. Sou mulher, logo só posso dizer palavrão em língua estrangeira, e se possível fazendo parte de um poema...daí então todas as pessoas ao meu redor poderão ver como sou autêntica e ao mesmo tempo erudita..
Uma puta erudita!!!
Tão erudita que posso dizer as piores bandalheiras em grego antigo, o Xenofonte sabe grego antigo.
E a lesma ficaria irreconhecível como convém a uma lesma numa corola de vinte e dois anos... Cinquenta e nove anos e cinco meses , meu Jesus. Foi rápido ,não?
Rapido.
Tenho pensado muito nisso. Mais alguns anos e terei um século!...
Puta que pariu !
Sinto um frio secular que vem do assoalho e se infiltra no tapete. Meu tapete é persa! Todos os meus tapetes são persa!
Não sei o que fazem esses bastardos que não impedem o frio se instale na sala.
Fazia menos frio no nosso quarto com o tapetinho de juta no chão. As paredes forradas de estopa..
Ele mesmo forrou as paredes. Pregou retratos de antepassados e gravuras da virgem de Fra Angélico.
Onde agora? Onde?
Podia mandar ascender a lareira mas despedi o copeiro, a arrumadeira, o cozinheiro. Despedi um por um. Me deu um desespero , mandei a corja toda embora.
RUAAA.. RUAAAA
Todos uns sacanas que mijam no meu leite e se torcem de rir quando fico para cair bêbada....
Tenho um iate , tenho um casaco de visom prateado , tenho uma coroa de ouro, tenho um diamante do tamanho de um ovo de pomba. Tenho um velho que me dá dinheiro , tenho um jovem que me dá gozo e ainda por cima tenho um sábio que me dá aulas sobre doutrinas filosóficas com um interesse tão platônico que logo na segunda aula já se deitou comigo. Vinha tão humilde, tão miserável com seu terno de luto empoeirado e botinas de viúvo que fechei os olhos e me deitei.
Vem , Xenofonte, vem... Meu nome é Luisiana, E nunca houve uma Luisiana tão Luisiana como eu
Ferme La buche Luisian!
Fiquei só...
Há lenha em algum lugar da casa mas não é só riscar o fósforo como se vê no cinema.
O japonês ficava horas ai mexendo, soprando até o fogo acender. E eu mal tenho forças pra ascender uma porra de um cigarro.
Estou aqui sentada faz não sei quanto tempo.
Desliguei o telefone, me enrolei na manta, trouxe a garrafa de uísque e estou aqui bebendo, devagarzinho, para não ficar de porre.
Hoje não!
Hoje eu quero fica lúcida, vendo uma coisa, vendo outra. E tem coisa a beça pra ver, tanto por dentro quanto por fora. Ainda mais por fora, uma porrada de coisas que comprei no mundo inteiro, e que só agora vejo .Agora que a sala está escura.
É que fomos escurecendo juntas , a sala e eu....
MUSICA- RETRATO EM PRETO E BRANCO - ELIS REGINA e TOM JOBIM

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